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Farmácia Hospitalar

O progresso das ciências da saúde implica, cada vez mais, uma actividade multidisciplinar integrada que envolve profissionais com diferentes formações curriculares, específicas e diferenciadas.

O Farmacêutico Hospitalar
O medicamento adquire hoje uma dimensão especial no contexto global da medicina e o farmacêutico hospitalar é o profissional que, habilitado com o grau de especialista, é responsável pela problemática do medicamento a nível hospitalar.

Está incluído numa carreira – Técnicos Superiores de Saúde – reservada aos que possuem licenciatura e habilitação profissional adequadas.Assim, o ingresso na carreira farmacêutica hospitalar implica a posse de um grau como título de habilitação profissional – estágio em farmácia hospitalar e saúde pública, regulamentado, elaborado em serviços acreditados, com a duração de três anos – o qual visa a profissionalização e especialização para o exercício profissional e confere o grau de especialista.

A sua carreira desenvolve-se pelas categorias de assistente, assistente principal, assessor e assessor superior, às quais correspondem funções de diferente natureza e de crescente complexidade e responsabilidade.

Dada a natureza e especificidade das suas funções, constituem um corpo especial da área da saúde.Assim, o seu perfil profissional orienta-o para o exercício em áreas profissionais específicas, preconizadas a nível mundial como sendo parte integrante do exercício farmacêutico hospitalar: organização e gestão, distribuição e informação, farmacotecnia, controlo de qualidade, farmacovigilância, ensaios clínicos em meio hospitalar, farmacocinética, radiofarmácia, actividades complementares da designada farmácia clínica e cuidados farmacêuticos, sem esquecer o seu importante papel como formadores.

Os serviços onde exercem, são departamentos com autonomia científica, técnica e de gestão dos órgãos de administração hospitalar, perante os quais respondem pelo resultado do seu exercício. A direcção dos Serviços Farmacêuticos é confiada ao técnico superior de saúde farmacêutico, ao qual cabe a coordenação e representação do serviço junto do Conselho de Administração.

A criação da Especialidade em Farmácia Hospitalar no seio da Ordem dos Farmacêuticos e o consequente aparecimento do seu Colégio da Especialidade, dando cumprimento a uma recomendação da União Europeia, veio confirmar a importância do farmacêutico nesta área de exercício profissional.

Notas históricas
A presença dos farmacêuticos nos hospitais portugueses, é conhecida de há longa data, mas a década de 50 constitui um marco histórico para a Farmácia Hospitalar em Portugal.Três farmacêuticos hospitalares, de reconhecido mérito, lideram o processo de definição dos objectivos da Farmácia Hospitalar. São os primeiros profissionais que se preocupam com a formação, promovendo reuniões de carácter alargado.

É esta preocupação com a necessidade de actualização e adquirir conhecimentos, que torna determinante a presença do farmacêutico no Hospital, como elemento indispensável e insubstituível nos cuidados de saúde. É também nesta altura que se definem com mais rigor as estruturas da saúde, sendo criado o respectivo ministério (até então Secretaria de Estado), que integrava a Direcção Geral dos Hospitais.

Estes farmacêuticos hospitalares, têm a sabedoria de aproveitar a oportunidade de elaboração de um projecto de diploma que regulamente a actividade farmacêutica hospitalar, e que se concretiza com a publicação do DL 44.204 de Fevereiro de 1962, através do Regulamento da Farmácia Hospitalar.

Considerado um documento inovador a nível europeu, este decreto contempla princípios relevantes para o futuro desta área de exercício profissional: estabelece a autonomia técnica dos Serviços Farmacêuticos (uma das conquistas mais importantes para o futuro deste grupo profissional que permitiu manter uma independência total relativamente aos seus pares na saúde); cria a carreira farmacêutica hospitalar e o internato farmacêutico, em paralelo com o internato médico; define as funções dos serviços; propõe a utilização do sistema do Formulário de Medicamentos e a existência das Comissões de Farmácia e Terapêutica; e cria um Organismo Central Coordenado. Em 1968 (DL 48357) são criadas as carreiras farmacêuticas. O DL 275/71 equipara a carreira farmacêutica à carreira médica, o que vem reforçar a importância deste grupo profissional, na área da saúde. O DL 414/91 passa a incluir os farmacêuticos hospitalares na carreira técnico superior de saúde, integrando-os nos corpos especiais.

Em 1999, com o DL 501, o perfil profissional do farmacêutico hospitalar é alargado, incluindo-se nesta área de actividade a responsabilidade da radiofarmácia.

Evolução da intervenção farmacêutica hospitalar
A evolução na intervenção farmacêutica hospitalar, estabelece-se em paralelo com a revolução tecnológica iniciada nos anos 60. Até então, a indústria farmacêutica era praticamente inexistente, e a utilização de medicamentos dependia quase exclusivamente da produção hospitalar.

Contudo, surgem novos conceitos relacionados com os métodos de produção de medicamentos. Aparece a Biofarmácia ou Biogalénica e sabe-se que o processo de fabrico pode influenciar a actividade farmacológica do medicamento.Os farmacêuticos hospitalares, conscientes das suas responsabilidades, começam a questionar-se sobre a qualidade, eficácia e segurança dos medicamentos preparados em larga escala nos hospitais.

Entretanto, constata-se a implantação e desenvolvimento da indústria farmacêutica em Portugal. A produção hospitalar, que não consegue acompanhar este ritmo acelerado, vê as suas instalações e equipamentos tornarem-se obsoletos, e a produção dos seus lotes economicamente inviáveis. Surgem os novos fármacos, que sendo cada vez mais eficazes, são também mais tóxicos. Começa uma nova era com o virar da página da história da farmácia hospitalar.

O farmacêutico hospitalar começa a ser solicitado para prestar informação sobre as implicações que as características específicas destes novos medicamentos podem ter sobre o perfil clínico dos doentes. Surge uma nova forma de estar na profissão, que se designará por Farmácia Clínica. O desenvolvimento deste conceito, iniciado nos Estados Unidos e no Canadá, rapidamente chega à Europa e naturalmente a Portugal. Fica na história da farmácia hospitalar a frase “ao doente certo, o medicamento certo”, que reflecte toda uma preocupação crescente com a qualidade e a segurança. O medicamento passa a ser orientado para o doente.

Em Portugal os farmacêuticos hospitalares respondem às novas exigências e, mantendo uma atitude interventiva e francamente positiva, assumem, uma vez mais, novas responsabilidades. Está-lhes reservada a missão de integrar, na sua plenitude, a equipa pluridisciplinar de saúde, cumprindo o seu exercício integrado num novo conceito - “Cuidados Farmacêuticos” - que visa a promoção da melhoria da qualidade de vida dos doentes. A par da evolução tecnológica, os novos conceitos de gestão e de mercado e, a crescente agressividade do marketing, obrigam a exigências de adaptação a novas realidades, a que os farmacêuticos hospitalares procuram dar a resposta positiva que deles se espera.

Assim, ao farmacêutico hospitalar com responsabilidades de direcção e coordenação de serviços, passa a ser exigida uma formação mais diferenciada ao nível da organização e gestão serviços, que lhe permita gerir eficazmente os recursos humanos e económicos de que dispõe.

Também ao nível da distribuição de medicamentos, tem surgido a necessidade de adaptação a novos conceitos de trabalho. Utilizando as novas tecnologias, reduz-se a possibilidade de erros de medicação, garante-se qualidade, rentabiliza-se os recursos humanos, reduz-se o capital imobilizado, e melhora-se a eficácia.

Por confronto com os métodos clássicos de distribuição de medicamentos, vê-se surgir nos hospitais portugueses, a distribuição individual diária em dose unitária associada à prescrição informatizada, permitindo um rápido acesso ao perfil terapêutico do doente, uma mais adequada intervenção farmacêutica, utilizando equipamentos semi robotizados que preparam a medicação para cada doente.

Estas novas tecnologias, melhoram não só a eficácia dos sistemas de distribuição, mas também a função de informação.

Áreas diferenciadas de intervenção
Num significativo número de hospitais, o farmacêutico acompanha a visita médica, integrando um grupo pluridisciplinar que engloba também, e por sistema, enfermeiros, fisiatras, assistentes sociais e outros. Esta aproximação permite influenciar, de forma positiva, o perfil de prescrição e colaborar na detecção de interacções.

Neste contexto, a participação dos farmacêuticos hospitalares na área da farmacovigilância, colaborando na detecção e notificação das reacções adversas no âmbito do Sistema Nacional de Farmacovigilância, segue o percurso inevitável.

A preparação centralizada de misturas intravenosas para nutrição parentérica, assume hoje particular importância na sua aplicação pediátrica, grupo para o qual a Indústria farmacêutica ainda conseguiu a resposta necessária. Tão importante como a sua preparação, é hoje a intervenção farmacêutica na área da nutrição clínica (avaliação nutricional e adequação dos esquemas de nutrição às necessidades e situação clínica dos doentes, e prevenção das complicações), não só em meio hospitalar, mas também no doente em ambulatório.

A sua integração em Comissões de Nutrição Artificial nos hospitais é um dado adquirido.As farmácias hospitalares assumem também a preparação centralizada de citotóxicos, com as vantagens inerentes. Em quase todos os hospitais é vulgar a designação de um farmacêutico como responsável pelo Hospital de Dia de Oncologia.Associada a esta prática, outra surgiu inevitavelmente.

Hoje, o controlo adequado da dor crónica, é parte fundamental dos cuidados a prestar ao doente. Assim, surge também o farmacêutico responsável pela Consulta da Dor. A monitorização da terapêutica através das concentrações séricas dos fármacos, é rotina de trabalho num número já significativo de hospitais. A Farmacocinética aplicada à clínica é hoje um instrumento de trabalho, considerado imprescindível, pelos médicos que já tiveram a oportunidade de a utilizar através dos farmacêuticos que a colocaram ao serviço da clínica.

E os farmacêuticos hospitalares vão-se diferenciando cada vez mais e intervindo eficazmente em novas áreas. A radiofarmácia, começa a dar os seus passos e, terá inevitavelmente uma importância vital para o exercício farmacêutico hospitalar. Todas estas actividades pressupõem a existência de Serviços de Informação de Medicamentos.

Aqui, o farmacêutico assume a função de avaliar a bibliografia, veiculando informação isenta e segura, que em muitas situações se destina a uma situação clínica concreta. Também aqui se tira partido das novas tecnologias de informação e em muitos hospitais é vulgar a existência de bases de dados como ferramentas normais de trabalho.

Salienta-se ainda a importância dos farmacêuticos na vida e dinâmica dos hospitais, pelo contributo e intervenção importantes que desempenham, com a participação em diferentes tipos de Comissões – Farmácia e Terapêutica, Ética, Controlo de Infecção Hospitalar, Garantia de Qualidade, Antibióticos, Nutrição Artificial e outros grupos de trabalho pluridisciplinares -, através dos quais têm possibilidade de reafirmar o seu contributo para a melhoria da qualidade dos serviços prestados ao doente.

Esta evolução na actividade farmacêutica hospitalar e o dinamismo que a maioria tem implementado ao seu exercício, reflecte-se na crescente publicação de trabalhos. Os farmacêuticos hospitalares têm prestigiado Portugal, através da organização e participação em eventos científicos nacionais e internacionais, a que se têm proposto com trabalhos (de reconhecido mérito), que representam e são o resultado da sua cada vez maior exigência profissional, contributo precioso para o desenvolvimento e intercâmbio científico.

É também cada vez mais significativo o número de trabalhos realizados por farmacêuticos em colaboração com médicos. Cabe ainda aos farmacêuticos hospitalares acção importante na complementaridade da formação dada pelas Faculdades de Farmácia, através dos estágios de pré-licenciatura, bem como de estágios de licenciatura. Para além destas, assumem também a sua parte de responsabilidade nas acções de formação, não só dos seus colegas como também de outros profissionais de saúde.

A Qualidade
Hoje, a Qualidade é uma exigência em qualquer profissão. Esta crescente a nível hospitalar, levou à publicação das “Normas de Boa Prática em Farmácia Hospitalar”, documento orientador, que o Colégio de Farmácia Hospitalar está a adequar às novas realidades.

Esta necessidade, sentida, de actualização relativamente a um documento ainda recente, mostra bem a evolução neste campo de actuação do farmacêutico.

O futuro
As dificuldades de ordem estrutural e conjuntural que ainda comprometem a consecução cabal das suas responsabilidades, estão perfeitamente identificadas.

Prendem-se com escassez de recursos humanos, (o número de farmacêuticos hospitalares é manifestamente insuficiente) e com a inadequação de instalações e equipamentos (sobretudo nos hospitais mais antigos, dado que nos mais recentes, os arquitectos já interiorizaram que o Serviço Farmacêutico tem exigências específicas, sendo necessário ouvir os seus profissionais). O Programa de Reorganização da Farmácia Hospitalar, publicado em Diário da República (Resolução do Conselho de Ministros n.º 105/2000, de 11 de Agosto), a concretizar-se, permitirá o melhor desempenho dos farmacêuticos hospitalares.

Artigo da autoria de Olga Freitas, farmacêutica hospitalar e presidente do Colégio de Especialidade em Farmácia Hospitalar da Ordem dos Farmacêuticos. 
 

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