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Indústria Farmacêutica
O Medicamento, a Indústria e as Ciências Farmacêuticas – nesta tríade qual será, de facto, o elo preponderante?No Górgias, Platão faz dizer a Sócrates: «Haverá para um homem um bem mais precioso do que a saúde?».

A resposta é demasiado evidente e sem dúvida que esta reflexão filosófica condicionou todo o pensamento farmacêutico ao longo dos tempos.A cura, debelando a doença e o prolongamento da vida, a conservação da juventude, a prevenção da doença, são preocupações marcantes que de há muito ditam as tendências na investigação cientifica.

Tudo começou com os segredistas e as suas consagradas mezinhas, diríamos funcionando segundo a teoria dos contrários: um produto tóxico em dose forte pode ser benéfico em dose fraca. «Tudo é veneno, nada é veneno, é uma questão de dose», dizia Paracelso.

O exercício da profissão farmacêutica não tem lugar de forma isolada, está sim, condicionado pelas várias profissões e factores circundantes: médicos, físicos, biólogos, engenheiros, psicólogos, políticos, etc. Enfim, são igualmente as pressões sociais do meio, o sistema de saúde e a sua inserção na Europa Comunitária, os comportamentos de risco, os hábitos e as culturas que não apenas direccionam a pesquisa de novas moléculas, a constituição de fórmulas e medicamentos, como moldam o exercício do acto farmacêutico, seja em que esfera este se desenvolva – indústria, hospital ou oficina.

O Medicamento
É certo que nos primórdios a cura estivesse relacionada com o explorar dos potenciais terapêuticos das plantas, ditas medicinais, mas os tempos e a História encarregaram-se da pesquisa e descoberta de soluções alternativas que assegurassem a eficácia e segurança desejável atribuída ao medicamento. Assim, a selecção criteriosa da:

forma farmacêutica - composição do medicamento e estabilidade
via de administração- operações farmacêuticas de produção

foram sofrendo transformações e acentuando a sua complexidade, obedecendo aos princípios fundamentais já referidos, deixando para trás as tinturas e linimentos dos famosos boticários.

Forçosamente a Indústria edificou-se e encarregou-se da concepção, do desenvolvimento e da comercialização do medicamento.

A Indústria
Aqui cabe referir as metamorfoses sofridas pela Indústria nos seus variados espectros de acção, nos quais salientamos a Produção. A produção foi condicionada pela inovação no seio do desenvolvimento galénico, mas igualmente pelas exigências legislativas nas quais se encontra intrínseco o conceito de GMP. Não pode também ser negligenciada a espiral de crescimento tecnológico e a própria revolução industrial que crescendo a um ritmo vertiginoso, concorrem para aquela evolução.

E daí que resulta?…
A passagem dos simples misturadores mecânicos e máquinas de compressão manuais de excêntrico para equipamento sofisticado. Sem dúvida que tal se deve, de modo marcante, a conceitos de produtividade, mas, é GMP na sua essência – a inocuidade dos materiais, a facilidade de limpeza,... Por seu lado, a Electrónica e a Informática permitindo o automatismo e a memória na colecta de dados imprescindível à reprodutibilidade, foram também, fulcrais neste processo.

O controlo analítico sofreu igualmente mutações e rapidamente se abandonou a instrumentação rudimentar que tanto celebrizou os seus criadores como é o caso do aparelho Monsanto para avaliação da dureza dos comprimidos; ou a substituição das simples titulações para avaliações quantitativas dos fármacos por métodos analíticos de maior grau de complexidade e fiabilidade.

Tal ficou igualmente a dever-se à evolução na Física, na Química, na Informática, na Electrónica e às próprias regras do jogo e novamente às GMP’s. A própria Matemática e a Estatística contribuíram para marcar o compasso. Parâmetros como a precisão, a selectividade e a especificidade, entre outros critérios subjacentes, autodeterminaram esta evolução sustentada.

E o contexto?
É evidente que as Ciências da Gestão ou Ciências Organizacionais, o contexto do mercado periférico envolvente, a competitividade, os parceiros a montante e a jusante, trouxeram novas dimensões a uma velha realidade.

Assim deixou de ser apenas a clássica dupla Produção e Controlo Analítico, que serviam apenas com uma contribuição minúscula, mas cresceram outros sectores como a Garantia da Qualidade, a Logística, a Engenharia, o Desenvolvimento, entre outros que constituíram marcos no alcançar de melhorias na prestação da qualidade de serviços e integração disciplinada na cadeia de valor do medicamento.

Quem ganha?
Ganham os utentes, os clientes de um modo geral, não apenas com os resultados produtivos, a acessibilidade ao medicamento, mas pelo atendimento às expectativas e necessidades na senda da Excelência.

E na continuação?
Com a integração europeia na década de 90, deu-se o salto qualitativo decisivo, possibilitando que nos colocássemos ao nível dos nossos pares e viabilizando o nosso potencial de conquista de novos mercados. As alianças, fusões e aquisições desenvolvidas no seio da Indústria Farmacêutica, conduziram a uma reflexão estratégica questionando, por um lado, a produtividade e, por outro, a capacidade das mega-estruturas para flexibilizar respostas à velocidade exigida pelo mercado.

Criaram-se, assim, novas relações comerciais de parceria, permitindo que umas empresas rentabilizem a sua capacidade produtiva fabricando medicamentos que não comercializam e que outras empresas explorem o potencial das oportunidades comerciais, sem produzirem os seus medicamentos e abriram-se as portas à potencial internacionalização das empresas.

Não será fácil à Indústria Farmacêutica encontrar o equilíbrio económico com critérios justos que devolvam a recompensa meritória. Os custos que envolvem os elevados e contínuos investimentos em Tecnologia, Instalações, Qualificação da mão de obra, materiais e fornecedores, no marcar dos tempos, crescem apocaliticamente. Os serviços na área de Ensaios Clínicos, Farmacovigilancia, Assuntos Regulamentares e Farmacoeconomia, que integram igualmente profissionais farmacêuticos, vão sendo reactivos às exigências procedimentais e acentuam igualmente na percepção dos custos.

Aqui temos o sinal positivo dos tempos que é paradigmático quando confrontado com a necessidade de redução do preço dos medicamentos e estabelecimento de preços de referência, contenção no receituário médico, redimensionamento e posologia limitativa, genéricos e outros mecanismos redutores que irão surgindo e que marcam a preocupação do sistema governamental, sócio-político e das associações vigentes, ao qual nenhum de nós é alheio.

Há que apostar em descortinar soluções futuras que assegurem uma previsibilidade antecipadora de modo a evitar desastres, sem esquecer que nunca nenhuma ameaça deixa de ser uma porta aberta a uma nova oportunidade.

A melhoria das condições da saúde pública e o acesso ao medicamento não são alheios ao desempenho da indústria Farmacêutica em relação aos indicadores de competitividade industrial pelo que têm obrigatoriamente que assentar no concretizar das medidas orientadoras do princípio de interesse estratégico da mesma para o país.

E é, pois, neste cenário de forças estranhamente antagónicas – as marcas do progresso técnico e da gestão versus a política da saúde – que nos dificulta a nós farmacêuticos o manter da legitimidade, transparência e rigor no cumprimento do nosso código deontológico de conduta farmacêutica, que desenvolvemos o nosso potencial de competências.

Aqui cabe dizer que o nosso papel será o de conservar o respeito pela nossa profissão, e como tal, o respeito pela pessoa do doente, nunca descurando o essencial – a saúde. Devemos estar atentos aos ventos de mudança, numa atitude anti-conformista, não esquecendo o nosso papel fulcral na Sociedade.Neste jogo de forças há que relembrar novamente Paracelso «Tudo é veneno, nada é veneno, é uma questão de dose».... assim saibamos nós encontrar a dose que nos convém.

Artigo da autoria de Paula Coelho, farmacêutica de indústria.
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ROF n.º118 Jan-Mar 2017