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Quais são os excipientes que podem ter origem animal?

  • Breves Questões Terapêuticas
24 Junho 2024
Quais são os excipientes que podem ter origem animal?
 

- Restringir o uso ou ingestão de produtos de origem animal é uma opção cada vez mais comum.

- Alguns dos excipientes utilizados na formulação dos medicamentos podem provir de fontes animais.

- A informação oficial dos medicamentos muitas vezes não contém informação sobre o método de obtenção dos excipientes.





São cada vez mais as pessoas que escolhem restringir o consumo e uso de produtos derivados de animais por questões éticas, relacionadas com o bem-estar animal, por preocupações ambientais ou pela perceção de benefícios para saúde, adotando um estilo de vida vegano, ou vegetariano. Por outro lado, algumas religiões advogam este estilo de vida, entre as quais o Hinduísmo e o Budismo, e outras, como o Judaísmo e o Islamismo, determinam restrições à ingestão de alguns produtos de origem animal.1-4 

Muitos medicamentos contêm componentes derivados de animais, sejam eles a substância ativa1,3-5 ou os excipientes que os integram.1,3-6 A sua toma pode ser inaceitável para alguns indivíduos, no contexto das suas crenças religiosas ou seculares,1,3,5 e estes podem querer conhecer a origem dos fármacos e excipientes contidos nos seus medicamentos, de modo a poderem tomar decisões informadas acerca dos seus tratamentos.1,3 

Entre os excipientes comummente utilizados no fabrico dos medicamentos e que podem ter origem animal incluem-se:

Ácido esteárico e seus derivados,1,3,5 como o estearato de magnésio2,4,6
O ácido esteárico é um ácido gordo obtido a partir de gorduras hidrogenadas.1 Podem ser obtidos a partir de sebo bovino,1-6 suíno1,5 ou ovino,1,3,5 ou de fontes vegetais.1-6 Utilizado no fabrico de cápsulas1 e comprimidos,2,4,6 como lubrificante,1,4 pós2,4,6 e cremes barreira.1 

Carmim (cochonilha)3-6 
Corante produzido a partir de insetos.2-6 Utilizado na coloração de cápsulas.2,4,6 

Goma-laca2-6 
Resina segregada por um inseto.2-4,6 Utilizada como agente agregante (aglutinante).2,4,6

Gelatina1-6
Mistura de proteínas1,5 obtida por hidrólise do colagénio produzido a partir da pele e dos ossos de bovinos e suínos,1-6 ou da pele de peixes.1,5 Utilizada em cápsulas,1,3,5,6 comprimidos e formulações de libertação modificada. Pode ser utilizada para espessar líquidos ou como agente de revestimento.2,4,6
Existem atualmente cápsulas produzidas a partir de hipromelose.1 

Lactose1-6 
Dissacárido naturalmente presente no leite da maioria dos mamíferos,1 do qual é extraído,1-6 tradicionalmente a partir de coalho bovino.5 É vulgarmente utilizada como diluente1-4,6 em comprimidos,1,3,4,6 cápsulas, inaladores e em formulações injetáveis.1,6 
Pode ser aceitável para vegetarianos, mas não para veganos.2 

Lanolina2-4,6 
Obtida a partir da pele2,4,6 e da lã de ovinos.2-4,6 Utilizada como lubrificante, na produção de colecalciferol e em produtos de aplicação cutânea e labial.2,4,6 


Outros excipientes, menos frequentes, incluem (lista não exaustiva):

 EXCIPIENTE  ORIGEM
 Ácido Oleico e Oleostearina3  Obtida por compressão do sebo.3
 Albumina5 Pode ter origem animal ou humana.5
 Caseína5  Origem bovina.5
 Glicerol3 Pode ser obtido a partir de gorduras animais.3
 Lecitina / Fosfatídeos4 Derivados do ovo.4
 Protamina5 Derivado de peixes.5
 Quitina3 Obtida do exosqueleto de artrópodes e crustáceos.3
 Sebo5 Origem bovina, ovina ou porcina.5


A consulta do resumo das caraterísticas do medicamento e do folheto informativo não permite, muitas vezes, verificar se os excipientes contidos em determinado medicamento são de origem animal, pelo que poderá ser necessário solicitar esclarecimentos ao laboratório titular da autorização de introdução no mercado (AIM). Contudo, este pode não dispor de informação precisa acerca da origem dos excipientes.1,2,6 

É importante que os farmacêuticos transmitam alguns conselhos aos utentes que revelem esta preocupação, tais como:
      • Os excipientes podem variar entre diferentes marcas e genéricos; a alteração de marca pode permitir obviar a questão;1 
      • Em certos casos pode ser adequado tomar somente o conteúdo das cápsulas ou utilizar, em alternativa, uma formulação líquida;1
      • É importante que, caso tenha dúvidas, se aconselhe com o seu médico ou farmacêutico sem parar de tomar o(s) medicamento(s) prescrito(s).1 


Referências bibliográficas:

  1. Implications of religious and cultural beliefs on selection of medicines. Drug Ther Bull. 2016 Apr;54(4):45-8. doi: 10.1136/dtb.2016.4.0396. 
  2. Strickland S. Dietary restrictions: implications on medication choice. Br J Gen Pract. 2014 Oct;64(627):e670-1. doi: 10.3399/bjgp14X681865.
  3. Medicines/pharmaceuticals of animal origin - V3.0 November 2020. Queensland Health [acedido a 13-03-2024]. Disponível em: https://www.health.qld.gov.au/__data/assets/pdf_file/0024/147507/qh-gdl-954.pdf
  4. Silk G, Vetharajan N, Blohm A, Teeling F, Keen K, Sullivan N, Kiran M. Are vegans being overlooked in our prescribing practices: An orthopaedic perspective from Bristol, United Kingdom. J Clin Orthop Trauma. 2023 Sep 22;44:102250. doi: 10.1016/j.jcot.2023.102250.
  5. Babos MB, Perry JD, Reed SA, Bugariu S, Hill-Norby S, Allen MJ, Corwell TK, Funck JE, Kabir KF, Sullivan KA, Watson AL, Wethington KK. Animal-derived medications: cultural considerations and available alternatives. J Osteopath Med. 2021 Mar 8;121(4):361-370. doi: 10.1515/jom-2020-0052.
  6. Lewis G. Excipients: What are the general considerations for vegan patients? Specialist Pharmacy Service. Published 19 July 2019 [acedido a 13-03-2024]. Disponível em: https://www.sps.nhs.uk/articles/excipients-what-are-the-general-considerations-for-vegan-patients/