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Surto de infeção por Hantavírus

07 Maio 2026
Surto de infeção por Hantavírus
Um surto de infeção respiratória grave associado a infeção por hantavírus foi identificado num navio de cruzeiro com bandeira dos Países Baixos, com 147 pessoas a bordo, no início do presente mês.

O navio iniciou viagem na Argentina, no passado dia 1 de abril, e seguiu um itinerário ao longo do Atlântico Sul, com múltiplas paragens em zonas remotas. O seu destino final era o arquipélago de Cabo Verde, no qual não chegou a atracar, tendo ficado fundeado ao largo da sua costa, com os passageiros e tripulantes ainda a bordo.

Os dados mais recentes (6 de maio) apontam para a existência de oito casos, três deles já confirmados por testagem laboratorial, com três casos fatais. Os testes realizados permitiram adicionalmente confirmar que a estirpe causadora deste surto é a Andes, existente em países da América do Sul.

O primeiro caso manifestou sintomas no dia 6 de abril, tendo falecido no dia 11. O segundo caso, um contacto próximo do primeiro, viajou da ilha de Santa Helena para Joanesburgo no dia 25 de abril, já manifestando sintomas, faleceu no dia 26. A posterior confirmação laboratorial de infeção por hantavírus neste caso desencadeou o rastreio dos restantes passageiros desse voo. Está atualmente em isolamento e investigação um caso suspeito num dos membro da tripulação.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), em coordenação com as autoridades de saúde de Cabo Verde, Países Baixos, Espanha, África do Sul e Reino Unido, iniciou a implementação de medidas de resposta e controlo e de investigação epidemiológica da fonte de exposição.


HANTAVÍRUS

Os hantavírus são vírus zoonóticos, pertencentes ao género Orthohantavirus, caraterizados por infetar roedores. Diferentes espécies de hantavírus circulam na Europa, na Ásia e no continente americano. Cada hantavírus tem tipicamente como reservatório uma espécie específica de roedor. Embora tenham sido identificadas numerosas espécies de hantavírus, apenas algumas estão associadas a infeção humana, nos quais podem causar doença grave, cujas manifestações clínicas dependem do tipo de vírus, que difere entre zonas geográficas.



TRANSMISSÃO

O principal modo de transmissão das infeções por hantavírus é através da inalação de aerossóis contaminados com vírus, provenientes da urina, fezes ou saliva de roedores infetados ou, mais raramente, pelas suas mordeduras. Atividades que envolvem contacto com roedores, como a limpeza de espaços fechados ou pouco ventilados, trabalhos agrícolas e florestais, bem como permanecer ou dormir em habitações infestadas por roedores, aumentam o risco de exposição.

A transmissão entre humanos só foi confirmada, até à data, para o vírus Andes, existente no continente sul americano, e constitui uma via de contágio incomum. Quando ocorre, a transmissão interpessoal pressupõe um contacto próximo e prolongado, particularmente entre membros do mesmo agregado familiar ou parceiros íntimos, sendo mais provável durante as fases iniciais da doença, quando a transmissibilidade do vírus é maior.



FORMAS CLÍNICAS DA DOENÇA

A infeção por hantavírus pode provocar diferentes formas clínicas de doença, dependendo da estirpe viral envolvida:
  • Febre Hemorrágica com Síndrome Renal (FHSR): manifestação mais frequente na Europa e Ásia, caracteriza-se por febre elevada, tendência para hemorragias e compromisso da função renal;
  • Nefropatia Epidémica: condição que afeta predominantemente os rins e apresenta habitualmente menor gravidade clínica, embora possa causar febre, fadiga intensa, dores lombares e alterações renais temporárias (ocorrendo na Europa);
  • Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH): predominante no continente americano, afeta principalmente os pulmões e o sistema cardiovascular, provocando dificuldade respiratória aguda, edema pulmonar e alterações cardíacas potencialmente fatais. É a forma mais grave, que pode evoluir rapidamente para insuficiência respiratória e apresentar taxas de mortalidade entre 20% e 40%.



SINTOMAS

Nos seres humanos, os sintomas surgem habitualmente entre uma e oito semanas após a exposição ao vírus e geralmente incluem:
  • febre;
  • cefaleias;
  • dores musculares;
  • sintomas gastrointestinais, como dor abdominal, náuseas ou vómitos.
Na SCPH, a doença pode evoluir rapidamente para tosse, dificuldade respiratória, acumulação de líquido nos pulmões e choque.

Na FHSR, as fases mais avançadas podem incluir hipotensão, alterações hemorrágicas e insuficiência renal.



DIAGNÓSTICO

O diagnóstico da infeção por hantavírus é realizado através de testes laboratoriais específicos, incluindo testes serológicos e métodos moleculares para deteção do vírus.



TRATAMENTO

Atualmente, não existe tratamento antiviral específico nem vacina para a infeção por hantavírus. O tratamento é sobretudo de suporte clínico, centrando-se na monitorização rigorosa e no controlo das complicações respiratórias, cardíacas e renais.



CONTROLO E PREVENÇÃO

A prevenção da infeção por hantavírus baseia-se principalmente na redução do contacto entre pessoas e roedores. As medidas preventivas gerais incluem:
  • manter habitações e locais de trabalho limpos;
  • selar aberturas que permitam a entrada de roedores nos edifícios;
  • armazenar alimentos de forma segura;
  • utilizar práticas seguras de limpeza em áreas contaminadas por roedores;
  • evitar varrer a seco ou aspirar fezes de roedores;
  • humedecer previamente as áreas contaminadas antes da limpeza;
  • reforçar as práticas de higiene das mãos.
Durante surtos ou perante casos suspeitos, a identificação precoce e o isolamento dos casos, a monitorização de contactos próximos e a aplicação de medidas padrão de prevenção e controlo de infeção são fundamentais para limitar a propagação da doença. O risco em Portugal é muito baixo, pelo que não estão preconizadas medidas preventivas específicas.



RISCO DE PROPAGAÇÃO NA EUROPA

O Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) considera que o risco para a população europeia é, presentemente, muito baixo, tendo em conta que as autoridades de saúde estão a implementar, a bordo do navio, as medidas de prevenção e controlo adequadas, bem como pelo facto de o vírus não ser facilmente transmitido entre pessoas. Por outro lado, não existe na Europa a espécie de roedor onde este vírus se aloja, nem é de esperar que possa vir a infetar outras espécies de roedores. 

Vários aspetos deste surto permanecem sob investigação, nomeadamente a sua origem. As autoridades de saúde consideram a hipótese de que alguns passageiros tenham sido expostos ao vírus na Argentina antes de embarcar no navio, a bordo do qual poderão ter transmitido a doenças a outros passageiros. Não obstante, o ECDC encontra-se a monitorizar rigorosamente a situação e as potenciais implicações para a Europa, permanecendo em contacto com a OMS e as autoridades de saúde pública nacionais.