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Degradação do preço dos medicamentos acentua dificuldades do setor

04 Abril 2019
Degradação do preço dos medicamentos acentua dificuldades do setor
A Associação de Distribuidores Farmacêuticos (Adifa) apresentou hoje, em Lisboa, um estudo intitulado “Caracterização e Impacto da Distribuição Farmacêutica em Portugal”, desenvolvido pela consultora Deloitte, em que destaca a redução de 23% do valor do mercado de medicamentos vendidos nas farmácias ao longo da última década, o que corresponde a cerca de 640 milhões de euros.

O estudo demonstra que os distribuidores de serviço completo realizam, em média, três entregas diárias às farmácias, num total de 11 mil entregas e cerca de 800 mil embalagens, com um tempo médio após uma encomenda de 2,8 horas. Independentemente da sua localização, uma farmácia aguarda, no máximo, 5,7 horas por uma encomenda.

O trabalho realizado pela consultora Deloitte mostra ainda que as dívidas acumuladas das farmácias aos distribuidores, e dificilmente cobráveis, rondam os 80 milhões de euros, tendo atingido um pico de 107,9 milhões de euros em 2014.

Ao analisar a situação económico-financeira do setor, o estudo revela que a distribuição farmacêutica é o elo da cadeia de valor com a rentabilidade mais baixa, apresentando um EBITDA médio anual de apenas 1,2%. Os resultados líquidos do setor demonstram as dificuldades e pressão económico-financeira das empresas. Entre 2010 e 2017, a rentabilidade líquida média foi de 0,4%, havendo anos em que, inclusivamente, o setor registou prejuízo.

O setor aporta, no entanto, um importante valor acrescentado para o sistema de saúde, pelo seu envolvimento em vários programas de saúde pública, nomeadamente no Programa de Troca de Seringas, na Via Verde do Medicamento, no projeto-piloto de dispensa de medicamentos antirretrovirais nas farmácias (TARV), o projeto-piloto de vacinação contra a gripe nas farmácias de Loures, entre outros.

Diogo Gouveia, presidente da Adifa, recordou, na abertura do evento, a situação frágil que o setor atravessa, devido à redução do mercado ambulatório de medicamentos, à redução de margens dos operadores e também aos avultados investimentos relacionados com a implementação de novos padrões de segurança nas embalagens de medicamentos.

Este responsável sublinhou, no entanto, que a diminuição da receita não teve associada uma diminuição do serviço, nem da sua qualidade. Como exemplo, referiu-se à criação de um mecanismo compensatório para a distribuição de medicamentos genéricos ou a transferência para o ambulatório de medicamentos de uso exclusivo hospitalar, onde se inclui a maioria da inovação terapêutica.

Sobre a falta de alguns medicamentos nas farmácias, Diogo Gouveia disse que o projeto Via Verde do Medicamento não tem sido suficiente para resolver o problema, mas adiantou também que este mecanismo, criado para resolver situações pontuais, não se pode tornar uma regra no abastecimento do mercado.

Uma palavra ainda para o número de farmacêuticos a exercer nas mais variadas áreas e departamentos do setor da distribuição, cerca de 4% do universo de farmacêuticos no ativo, e um agradecimento à OF pela reativação do Grupo Profissional de Distribuição Farmacêutica.

A bastonária da OF, Ana Paula Martins, destacou também os problemas relacionados com ruturas de stock e falhas de abastecimento de medicamentos às farmácias, lembrando que são percecionados pela população, e pelos próprios médicos prescritores, de forma completamente diferente dos bens de consumo corrente.

A bastonária considera que o fenómeno se acentua com a degradação do preço dos medicamentos no nosso país, que tornam o mercado nacional pouco atrativo em termos internacionais. Os números reportados sobre as falhas de abastecimento nas farmácias são dispares, mas mesmo tendo por base os dados divulgados na véspera pela presidente do Infarmed na Comissão Parlamentar de Saúde, a bastonária considera que são muitos milhões de embalagens de medicamentos em falta e que a solução do problema não passa apenas por uma maior regulação do setor.

Ana Paula Martins sugeriu um pacto de regime na próxima legislatura para garantir a sustentabilidade de toda a cadeia de valor do medicamento. Referindo-se ao modelo de remuneração dos serviços farmacêuticos prestados nas farmácias comunitárias, que considera esgotado, a bastonária assegurou o empenho da OF na promoção de um debate nacional sobre o tema.

De acordo com os dados divulgados também na véspera pela presidente do Infarmed, registou-se o encerramento de 150 farmácias em todo o país, bem como a abertura de 200 novas unidades. Para a bastonária, a principal questão pretende-se com a localização das farmácias que encerraram atividade, deixando desprotegidas as populações em zonas mais isoladas e carenciadas.

Ana Paula Martins realçou as dificuldades que atravessam várias farmácias situadas no interior do país, onde ninguém quer estar e para onde ninguém quer ir, lembrando também o risco de penhora ou insolvência que assola mais de 600 farmácias, e que motivou inclusivamente a adesão e subscrição da petição à Assembleia da República garantir a sobrevivência da rede de farmácias.

No final da sessão de abertura deste primeiro congresso da Adifa, a presidente do Infarmed, Maria do Céu Machado lembrou que o início do seu mandato coincidiu com a fundação da associação dos distribuidores farmacêuticos e elencou três desafios que o setor atravessa: a implementação dos dispositivos de segurança impostos pela diretiva europeia sobre medicamentos falsificados, a distribuição de vacinas nas farmácias, em especial das vacinas contra a gripe, que contribui fortemente para o aumento da cobertura vacinal da população, e a passagem de alguns medicamentos de uso exclusivo em ambiente hospitalar para as farmácias comunitárias.

A este propósito, a presidente do Infarmed anunciou publicamente o início no próximo mês de maio dos trabalhos tendo em vista o início da dispensa nas farmácias de alguns medicamentos oncológicos e para doentes transplantados.

Consulte aqui o estudo "Caracterização e Impacto da Distribuição Farmacêutica em Portugal”.